Moeda Digital de Banco Central: Revolução Financeira à Vista?

Moeda Digital de Banco Central: Revolução Financeira à Vista?

Em um mundo cada vez mais digitalizado, a discussão sobre moedas digitais de banco central ganhou novo fôlego com o projeto brasileiro Drex. Lançado pelo Banco Central do Brasil, o Drex prometia não apenas acelerar e baratear pagamentos, mas também servir como base para inovações financeiras. No entanto, em 2025, uma mudança significativa reposicionou o escopo da iniciativa, realocando esforços para criar uma robusta infraestrutura de registro de ativos. Este movimento evidencia a complexidade de equilibrar inovação e segurança, ao mesmo tempo em que se busca atender às necessidades de um universo financeiro em constante evolução. O caso Drex ilustra desafios técnicos, regulatórios e sociais que merecem análise profunda.

História e Motivação por Trás do Drex

O conceito de moeda digital de banco central (CBDC) surgiu para trazer maior eficiência ao sistema financeiro e democratizar o acesso a soluções digitais. No Brasil, as primeiras discussões começaram em 2020, com a formação de um grupo de estudos multidisciplinar. Em 2021, foram definidas diretrizes para pagamentos varejo, operações presenciais e remotas e integração com o dinheiro físico.

Na fase inicial de testes, em 2023, 16 instituições financeiras participaram de experimentações de transferências interbancárias. A proposta era clara: aproveitar tecnologias de registro distribuído para reduzir custos e tempos de liquidação, criando uma moeda oficial na forma digital, distinta das criptomoedas privadas.

Aspectos Técnicos e Desafios de Implementação

Para viabilizar o Drex, o Banco Central adotou Distributed Ledger Technology semelhante à blockchain, mas com níveis de privacidade ajustados às normas bancárias. Embora promissor, o sistema apresentou entraves relacionados à escalabilidade e ao sigilo bancário em testes de grande volume.

O Drex seria emitido diretamente pelo BC para instituições autorizadas, que, por sua vez, ofereceriam carteiras digitais aos seus clientes. Esse modelo intermediado garante maior controle e conformidade regulatória, mas aumenta a complexidade operacional e a necessidade de segurança máxima.

Mudança de Estratégia em 2025

Em 2025, o Banco Central anunciou que o Drex deixaria de ser tratado como moeda digital propriamente dita. Em vez disso, o projeto passou a focar em infraestrutura para registro de ativos. Essa decisão decorreu de obstáculos técnicos e de privacidade que mostraram a DLT ainda imatura para substituição total dos sistemas tradicionais.

O coordenador do Drex alertou que a tecnologia demandaria novos ciclos de maturação antes de atender aos rigorosos padrões nacionais. Assim, o projeto evoluiu de uma proposta de moeda para uma plataforma de tokenização, onde garantias de crédito e outros ativos financeiros poderiam ser registrados de forma segura e auditável.

Impactos e Funções Previstas

Apesar da redefinição de foco, o Drex manteve potenciais benefícios para o mercado financeiro brasileiro. Entre as funcionalidades esperadas, destacam-se:

  • Democratizar o acesso à economia digital para pequenas e médias empresas.
  • Automatizar liquidações e pagamentos via contratos inteligentes.
  • Tokenização de ativos e garantias de crédito com registro imutável.
  • Integração simplificada entre plataformas financeiras e o sistema bancário.

Essas aplicações poderiam reduzir custos operacionais, acelerar transações e oferecer maior transparência às partes envolvidas, transformando cadeias de valor e modelos de negócio.

Desafios Regulatório e de Privacidade

O principal ponto de crítica ao Drex diz respeito à proteção de dados e ao sigilo bancário. Implementar uma rede distribuída exigiu ajustes para garantir anonimato e conformidade com normas de privacidade. Além disso, a regulação nacional precisou avançar para definir papéis, responsabilidades e mecanismos de supervisão.

  • Segurança e privacidade dos usuários em ambientes DLT.
  • Escalabilidade para milhões de transações simultâneas.
  • Interoperabilidade com sistemas legados e outras CBDCs.
  • Governança clara e supervisão eficiente pela autoridade monetária.

Perspectivas Futuras e Caminho a Seguir

Com a nova fase de testes agendada para 2026, o Drex surge como base técnica para diferentes aplicações, longe do estigma de “moeda digital”. A digitalização de garantias e a potencial substituição do DLT por tecnologias mais avançadas indicam um olhar pragmático do Banco Central.

No cenário global, diversos países avançam em suas próprias CBDCs, ainda que ninguém tenha alcançado um modelo definitivo. O Brasil, ao adaptar o Drex para fins de infraestrutura, acumula experiência e contribui para o debate internacional.

Mais do que adiar a revolução financeira, a mudança de estratégia sinaliza uma evolução no pensamento sobre democratizar o acesso a serviços financeiros de forma segura. O Drex, longe de ter fracassado, inaugura uma etapa de maturação: entender limitações, testar usos práticos e preparar terreno para inovações que podem, efetivamente, transformar o sistema financeiro nos próximos anos.

Felipe Moraes

Sobre o Autor: Felipe Moraes

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